CLÁUDIO GELAPE

Clinica de cirurgia cardiovascular

Logo branca

Aprenda e se cuidar da sua saúde cardiovascular

A cardiopatia reumática - importante causa de cirurgia cardíaca para troca valvar

A febre reumática e a subsequente cardiopatia reumática é uma doença inflamatória desencadeada pela faringoamigdalite causada pela bactéria Streptococcus pyogenes. Em geral ocorre em crianças e adolescentes entre os 5 e 15 anos de idade.  

A febre reumática aguda ocorre três semanas após a infecção e pode afetar as articulações, pele, cérebro e o coração. O comprometimento cardíaco decorre do processo inflamatório que afeta o pericárdio, o miocárdio e o endocárdio, representando a manifestação mais grave da doença. A cardiopatia reumática crônica caracteriza-se por fibrose e calcificação valvar, que causam deformidades estruturais nas valvas cardíacas. A lesão isolada da valva mitral é a mais comum, seguida da valva aórtica.

A cardiopatia reumática constitui um dos principais problemas de saúde pública do Brasil. Além disso, trata-se de uma doença que produz alto custo para os serviços de saúde requerendo repetidas hospitalizações, a maioria com indicação de cirurgia cardíaca. Estudo recente mostrou que a cardiopatia reumática foi responsável por 20% de todas as cirurgias cardíacas realizadas no Hospital das Clínicas da UFMG, sendo um importante fator determinante de internação prolongada após cirurgia cardíaca.  

Manifestações clínicas e complicações

Usualmente, o paciente com cardiopatia reumática crônica apresenta manifestações clínicas anos ou décadas depois do primeiro episódio de febre reumática. Os sintomas da cardiopatia reumática dependem do padrão de lesão valvar e da valva acometida. As palpitações são queixas frequentes dos portadores de valvopatia mitral, enquanto dor torácica e síncope aos esforços são mais frequentes em pacientes com valvopatia aórtica. A insuficiência cardíaca constitui a apresentação clínica mais frequente das disfunções valvares com cansaço aos esforços, cansaço ao se deitar, tosse, chiado, hemoptise, edema periférico e fadiga. É fundamental procurar dados que indiquem se o paciente apresenta intolerância ao exercício físico de provável causa cardíaca. A presença de sintomas, especialmente dispneia aos esforços, é a principal indicação de tratamento cirúrgico para reparo ou troca valvar.

Uma complicação muito frequente nos pacientes que possuem lesão reumática da valva mitral é o desenvolvimento de arritmias como a fibrilação atrial. Esta arritmia aumenta o risco de eventos embólicos, especialmente do acidente vascular cerebral isquêmico (derrame), que representa uma das complicações mais temidas da estenose valvar mitral.  A cardiopatia reumática também constitui um fator predisponente para endocardite infecciosa, infecção da valva cardíaca, especialmente em indivíduos com próteses valvares.

Tratamento

A intervenção invasiva através de procedimento percutâneo ou cirúrgico está indicada na cardiopatia reumática grave com manifestações clínicas por ser a única opção capaz de melhorar os sintomas e sobrevida. A definição da terapia apropriada baseia-se, principalmente, no padrão de envolvimento reumático da valva. Nos pacientes com deformidade valvar extensa, a cirurgia de troca da valva com implante de prótese constitui a abordagem mais apropriada.  Abaixo estão apresentadas imagens de valvas mitrais reumáticas dos pacientes submetidos à cirurgia de troca valvar mitral no Hospital das Clínicas da UFMG.  

 

Prevenção

A prevenção de surtos iniciais de febre reumática depende do diagnóstico e tratamento rápidos da faringoamidalite. A erradicação do estreptococo da orofaringe é essencial. Na seleção de um regime terapêutico, vários fatores devem ser considerados, incluindo eficácia bacteriológica e clínica, e facilidade de aderência à terapêutica recomendada. A penicilina é o agente antimicrobiano de escolha para o tratamento, exceto em pacientes com história de alergia à penicilina.

Nos pacientes que já apresentam o diagnóstico de febre reumática é indicada a profilaxia secundária para a prevenção de novos surtos de febre reumática. Ressalta-se a necessidade do diagnóstico correto, e a melhor ferramenta para fazê-lo é a história clínica detalhada e o exame físico minucioso. Assim, em nosso meio, a profilaxia secundária deve ser realizada com aplicações de penicilina G benzatina com intervalo máximo de três semanas.

Maria do Carmo Nunes (Cardiologista e Professora Adjunto-Doutora do Departamento de Clínica Médica da UFMG)